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Um mergulho na direção da alma

Bom dia, boa tarde ou boa noite, dependendo do horário em que você acessou este espaço. Falo do Planeta Terra, de um apartamento do Morumbi, o melhor lugar para se viver. Com este blog, eu pretendo compartilhar minha experiência de atleta veterano. Em setembro, viajo para a Inglaterra, de onde me jogarei ao mar, para uma travessia realizada até hoje apenas por nadadores mais jovens. Vou nadar, nadar, nadar e nadar até o outro lado das águas, onde fica a França. Meu técnico, o Igor de Souza, já fez essa travessia duas vezes. Na segunda vez, ele não se contentou em chegar. Ele voltou para a Inglaterra assim que tocou a mão no solo francês. Com toda sua experiência, inclusive de quem já participou de uma edição das Olimpíadas, Igor tem sido importante na minha preparação física. Mas uma empreitada desse tipo não se faz apenas com condicionamento dos músculos. É preciso se preparar psicologicamente. Afinal, podem ser até catorze horas de braçadas, em águas geladas e em alguns instantes mar revolto, o que vai me obrigar a nadar em ziguezague em certos trechos.

Tenho uma pizzaria no Morumbi, a Mercatto, e certa noite, ao me entrevistar, a jornalista Mônica Bérgamo me perguntou: por que, aos 50 anos, você quer fazer essa travessia? Não seria melhor ficar tranqüilo, no seu canto, cuidando dos seus negócios? A Mônica, que é a jornalista mais brilhante que já conheci, ouviu a mesma resposta que tenho dado aos amigos desde que disse que seria o décimo segundo brasileiro a cruzar o canal: eu quero mostrar que a vida não começa aos 40, como se dizia, mas aos 50, aos 60, aos 70. A vida começa todos os dias, não importa a idade. Quando nasce o sol, lá estamos nós, com essa carcaça que carregaremos até não sei quando, sendo convidados a fazer novos planos, a costurar idéias, a nos impor desafios. Isto é dizer ao mundo: tenho 50 anos e estou mais vivo do que ontem. Com licença, eu vou à luta. E que luta é essa? É a luta para superar seus limites. Dá uma satisfação danada viver nessa perspectiva.

Há onze anos, eu tinha acabado de ter o meu filho, o Jorge, tinha uma pizzaria recém-inaugurada, indo de vento em popa. Fumava um cigarro atrás do outro, ficava acordado de madrugada e dormia pela manhã. Achava que tinha sete vidas, como um gato. De repente, meu coração deu sinais de que não aguentaria a vida sedentária e nem um pouco saudável. Tenho amigos que passaram pelo mesmo problema e, em vez de reagir, se entregaram, aceitaram o grito de socorro do coração como uma mensagem de que estavam velhos. Eu, não! Como num filme, revi minha vida até onde a memória consciente alcançou e decidi mudar radicalmente meu estilo de vida. Se não fizesse isso, certamente não teria mais vida para mudar. Larguei tudo aquilo que me fazia mal, começando pelo cigarro, e retomei o esporte da minha adolescência, a natação, até porque me sobravam poucas alternativas. Tenho problema na articulação do joelho, que me dificulta a prática de outros esportes.

Hoje, 30 quilos mais magro e visilvelmente mais saudável, me sinto mais jovem do que há dez anos atrás. E pronto para atingir o ponto mais alto da natação, que é o Canal da Mancha. Tenho nadado todos os dias de manhã e à tarde, tenho acompanhamento de nutricionista e de médicos. Mas a força maior para cruzar o Canal não vem desses profissionais, por melhor que eles sejam, e os que me assistem são muito competentes. A energia vem de dentro. Quando nadamos longos percursos, nos sentimos sós. O técnico e a equipe de apoio seguem num barco próximo, mas você não conversa com ninguém. A natação de longa distância é um mergulho em direção aos lugares mais escondidos da nossa alma. Enquanto damos as braçadas, conversamos conosco mesmos. Tem gente que não agüenta e desiste. Felizmente, aprecio esses momentos de solidão. E sei que saio das águas melhor do que entrei e fico feliz quando sei que melhorei o meu tempo. Não importa o tempo que os outros fizeram. Na natação, como na vida, o adversário mais duro está dentro de você. É esse adversário que você tem que vencer.

Até a próxima.

Paulo Maia


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CBN: entrevista de Igor de Souza a Milton Jung durante a travessia

CBN: entrevista de Paulo Maia após a travessia

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