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Contra a solidão e a violência, dona Elza oferece suas poesias

Com sua voz baixa e delicada, Elza Franklin de Almeida cruzou o suntuoso portal de um banco perto do MorumbiShopping e pediu para
falar com o presidente. Os funcionários se entreolharam e comentaram algo inaudível para uma senhora que já tem mais de 60 anos de idade. A gerente foi chamada e perguntou: "Que assunto a senhora gostaria de conversar com o presidente?". Dona Elza, como é conhecida, sorriu e respondeu: "Poesia.." E sacou de sua bolsa algumas folhas de papel sulfite, com versos manuscritos, como estes: "...Quando você pegou minhas mãos/ Com tanta ternura, que até hoje/ Sinto seus dedos amorosos junto aos meus/ e ali ficamos pensando em uma coisa linda/doida...um desejo."

A gerente pediu que ela deixasse as poesias e se comprometeu a encaminhar ao dono do banco. Dona Elza não queria patrocínio nem nenhum serviço que pudesse gerar custos. "Eu queria apenas que eles colocassem as poesias em algum quadro, para que os jovens pudessem ler. Os jovens precisam mais do que nunca de ter acesso à poesia", diz dona Elza, moradora do condomínio Manhathan, na avenida Guilherme Dumont Villares. Diretora de escola aposentada, ela mora em São Paulo há menos de dez anos, tempo suficiente para perceber que a cidade está desprovida de calor humano.

"As pessoas correm de um lado para o outro, atrás de dinheiro e esquecem que o melhor da vida está em nós mesmos e nas outras pessoas,
nas emoções, no amor, na amizade verdadeira. Eu me preocupo porque vejo que os jovens estão deixando os anos se passarem sem
aproveitá-los", comenta. Dona Elza é de uma família tradicional de Ribeirão Preto, interior do Estado, tem uma filha e dois netos, que
moram no mesmo condomínio que ela. No Morumbi, ela fez algumas amizades que lhe garantem a divulgação das poesias entre os jovens. No
Bradesco do Portal do Morumbi, a gerente-geral expôs suas poesias. No Pão de Açúcar também.

Dona Elza lembra com saudades do tempo em que os jornais reservavam um espaço para a publicação de poemas. "Em Ribeirão Preto, tive várias poesias publicadas pelo jornal A Cidade. Mas isso foi no passado, porque agora você não vê mais poesia em lugar nenhum. Os jornais só imprimem notícias sobre tragédias e problemas. Esquecem que vida também é feita de bons momentos", afirma. Dona Elza fez seu primeiro
poema aos 8 anos de idade, para uma mulher de nome Rosa, que trabalhava em sua casa. Rosa se mudaria para Campinas. Na véspera da
viagem, a então menina lhe entregou seus primeiros versos: "Rosa colhia sozinha / lindas rosas no jardim / cheguei perto e disse-lhe:/ Rosa, qual dessas rosas você me dá? / Dou-lhe todas essas, / Mas desde que você gostei muito de mim.

O banco onde dona Elza tentou divulgar suas poesias nunca entrou em contato com ela, nem afixou os poemas. O Morumbi.Net recebeu outros originais das mãos de dona Elza (ver abaixo) e decidiu publicá-los. São versos que tratam do amor, da paixão e das coisas simples. Quem passa horas a contemplar a lua para tirar dela lições de vida tem sempre algo a dizer. Vamos ouvi-la:

Mensagem de um sabiá

Nas dobras das asas de um sabiá
Vi um mundo de sugestões
Debruçadas nas janelas do firmamento
Tentando segredar através de seu canto
Suas mensagens amorosas
Percebo que seu olhar não estava nos ventos
Mas, sim, fixos em meu interior
Devido à afinidade que temos peLo espaço celeste.
Será que a chegada da primavera
deixou-o tão sonhador?... a falar da vida
como se ela tivesse acontecido?
Num impulso de expressão me diz:
Pronto! Aqui estou... sou eu... bom dia!
Eu vou bem e você? São meus esses versos? Sim,
Mas é preciso que você se encante novamente
Com as flores do mundo...
Tem razão. Seu canto, seu simples canto
É como uma luz encantada dentro de mim.
Obrigado... o importante é compreender
Que não somos criaturas pequenas assim
Somos o sentido da vida.
Sim... entendo. Volte logo, senão meu coração
Se fecha como a noite. Por isso,
Até amanhã.

Elza Franklin de Almeida

...................

Morada da ternura

Onde será que a ternura mora?
Será nos corações das flores, dos sonhos,
Nas ilusões do amor?
Creio que está guardada nos pensamentos
Que só surgem quando estamos enamorados.
Sinto que este sentimento de prazer
Traz segredos de nossas confidências
Onde procuramos encontrar o nosso eu
Foi assim que você chegou
Conduzindo esta forma individual de paixão
Com palavras de esperança e vontade
Em realizar nossos sonhos deslumbrados
Percebi que a vida só vale
Com estes instantes de felicidade
Lembra... quando você pegou minhas mãos
Com tanta ternura, que até hoje
Sinto seus dedos amorosos junto aos meus
E ali ficamos pensando em uma coisa linda
Doida...um desejo
Hum! Era o amor a deslizar pelos nossos corpos
Indicando uma nova meta de vida
A iluminar nossa existência.

Elza Franklin de Almeida

.............

Os sonhos aguados do mar

Demarquei minhas idéias, na luz solar
Que surgia acima do mar.
Vinculei minha mente nas ondas que iam e vinham
Trazendo lembranças, risos e desejos.
Ah! Quantas coisas o mar nos ensina:
A filosofia de sentir a vida de ontem e hoje
O misticismo dos amantes, num cair de tarde
A ética atada às palavras.
Dentro desse sossego amoroso, separei
O tempo livre para o domínio criativo,
Despreocupada com o mundo, com as pessoas
Somente ficar enlaçado no corpo do meu amado
Como um leito de estrelas, cheio de ondas
Meu amor, sorria com a chegada de cada onda,
Pois eu procurava abrigo em seus braços.
Assim os dias de janeiro e fevereiro foram passando
Tingindo nossas vidas de bem-me-querer, e ais...
Ao som das vozes do mar e dos coqueiros
Que sussurravam ao vento
Nossas carícias ao cair das tardes.

Elza Franklin de Almeida

.............

Palavras de um Sol enamorado

Um sol vertical, elaborado pelas mãos do calor
Invadiu minha cama com olhos de sono
Vendo-me acordada, parou um pouco e disse-me:
Vejo tristeza em seu olhar. Não fique assim
Basta que saibas olhar o mundo
Na forma de uma espiral ondulante
Que às vezes solta lágrimas coloridas e outras vezes
Gira, gira no ponto fixo do coração, onde mora
O amor.
Veja, quase todos seguem a linha do horizonte
Conforme as circunstâncias que os envolvem
Sinta que em determinado momento da vida
Rajadas de desejos e referências íntimas
Chegam em forma de espiral logarítmica
Torcendo seus pensamentos numa encarnação
De razão e sensibilidade
Ah! Você tem razão
O que importa é sentir a energia da vida
Pulsando novamente dentro de mim
Só assim poderei dizer ao meu amado
Que ele vive no fundo dos meus olhos.

Elza Franklin de Almeida

........

Prefiro colher flores no jardim

Os mistérios da vida sempre suscitaram em mim
Sentimentos de beleza e verdade
Desta maneira, olho profundamente as pessoas
A natureza, o universo
Tudo isto me fascina
São coisas simples que envolvem o cotidiano
Ir em busca da felicidade e da alegria
Adaptar-se às situações novas
Sentir o sorriso de meus amigos
Perceber que as pessoas estão ficando limitadas
Por finalidades irrisórias como:
A riqueza, a glória, o luxo.
Sentimos que os relacionamentos estão superficiais
Porque não há tempo para conhecer o outro
Então prefiro colher flores no jardim
E ir de encontro com o sol e o vento.

Elza Franklin de Almeida

.............

No íntimo da vida

Se a vida é um jogo de esperas
É sinal que existe uma relação entre palavras e razão
Se inclinarmos a cabeça para olhá-la melhor
Veremos sentimentos estranhamente resolvidos
E às vezes transparentes devido às estrelas da noite
Então, meu amor, diga-me:
Como entender o sentido da vida?
Pelo processo de personalização
Onde nossa jornada apresenta riscos –
De incompreensões, frustrações.
Mas também de conquistas como: as descobertas de
Amizades, do florescimento do amor, da felicidade
E o despontar da sabedoria da vida.
Você sentirá que toda essa mudança é como
A força da luz que se apaixona pelo dia
Compreende?...sim
O importante é escutar a voz do nosso interior
Através de intuições, sonhos, fantasias e entendimentos
Uau! Sinto que as visões sintonizam, o coração
Com o desejo e a realidade
Saiba, meu amado, você crivou com fogo e lores
Minha essência de vida
Deixando meu pensar desatado ao vento.

Elza Franklin de Almeida

.................

Essência de um sentimento

Em plena manhã de dezembro, um sol estonteante
Escondeu-se debaixo das flores aazuis do jardim
Com a expressão de quem quer ficar
Olhou-me com olhos de alma
Tentando traduzir seu semblante alegre
Cheio de imensa luz.
Sua intenção era mostrar que ele não nos abandona
Em nenhuma de suas perspectivas.
As barreiras são necessárias,
Pois é aí que a ilusão reside
Com toda a força de sua realidade
Ah!... agora compreendo...
Vim em busca de sua energia amorosa
E você... atrás de suas verdades e transformações
Mas diga-me: como seu amor deve viver?
Com felicidade, para sentir os prazeres da vida
Porém sinta que a natureza tem um dever
Para com você, de dar:
Sonho, amor, razão e desvarios
Obrigado, meu amigo:
Você tornou minha vida mais sonhadora.

Elza Franklin de Almeida

.............

Lua azul

Em junho, lua azul lançou seu destino
Por todo esse universo
Sei que desejava trazer amor e felicidade
Forrar de desejos os olhares que fantasiavam sua chegada
Quando apareceu encontrou as pessoas de mãos dadas
Saudando-a
Assim foi deslizando pelo céu devagarinho
Parecendo que sua velocidade tivesse diminuído
Até o vento sossegou seu sopro e cerrou os olhos
Para concentrar melhor o que via e disse:
Não é uma lua comum, é maravilhosa.
O importante não é vê-la, mas sim
Senti-la, ouvi-la, compreendê-la
Ela sorriu e completou... retire-as
Assim passou toda a noite
Levando sua mensagem entre beijos e abraços
Enquanto se afastava da terra, pensou:
Precisei chegar, mas para chegar é preciso partir
Levarei muitas saudades
Agora acho que vocês começaram a olhar o céu
De um jeito diferente.

Elza Franklin de Almeida

..................

Saudades e ausências

Foi preciso que a saudade chegasse
Para que eu desenhasse seu perfil
Neste céu azul de inverno
Foi preciso que esta ausência luminosa
Percorresse meu corpo sutilmente
Como o vento e o frio fazem em julho
Neste momento meu, eu me integro
Na natureza concreta do ar
Onde as linhas perpendiculares das idéias
Entrelaçam-se para amar
Preciso exprimir essas impressões
Olhando-as demoradamente
Só assim vencerei todas as dificuldades
Sei também que as despedidas são indispensáveis
Como preparo para o reencontro
Tudo isso eu sei, porque tem um sentido....
Que você me leva escondida em sua alma.

Elza Franklin de Almeida

...................

Lágrimas

Será que as lágrimas de ontem
Tinham a intenção de lembrar?
Do cheiro da chuva, do grito dos pássaros
Do silêncio das nuvens
Da alegria de sentir a vida?
Tenho a sensação de que tudo
O que vivi e experimentei
Ali estavam intactas e presentes
Tendo entender
A trajetória dessas gotas ácidas
Alinhadas uma a uma
Que vão pousar no rio navegável
Das lágrimas
Sei que elas são capazes de nos surpreender
Quando se transformam em luz do céu
Num magnífico arco-íris de sete cores
Onde vão criar atmosferas diferentes
No decorrer do dia.

Elza Franklin de Almeida

....................

Trajetória de um dia

Como as janelas de meu quarto
Estavam abertas para o dia
Comecei a tomografá-lo
Percebi que o curso de um dia nunca é constante
Pelo fato de escutar emoções, prazeres, dor
De forma tão alternada.
Veja... as horas que passo com meu amor
São horas de grande sensibilidade
Mas quanto dura um dia?
Ora, depende da nossa imaginação.
Pode durar o dia todo ou
Ir embora com o amor
E quanto será que o dia começa?
Quando sentimos a felicidade
Estirando-se para o alto do dia
E volta correndo dentro de nossa alma
Ah! Percebo...
Que é dentro do círculo das horas
Que o dia mora rodeado de ilusões.

Elza Franklin de Almeida




 


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