O dia em que Paraisópolis gritou
A I Conferência da Juventude em Paraisópolis discutiu temas como direitos humanos e cultura. Mostrou o que a favela tem de melhor: bandas com repertórios amplos, do forró ao rock, e grupos de teatro que se especializaram em transformar vielas em palcos. Para cobrir o encontro, o Morumbi.Net enviou o repórter Rodrigo Tavares, de 20 anos. Eis o seu relato:
Dez de novembro de 2007, oito e meia da manhã. O céu está nublado e promete chuva. Subindo de fusca a rua Francisco Américo Maurano, apelidada de "Ladeirão", viro a segunda à esquerda. Ali é a entrada de Paraisópolis. A rua é estreita e o trânsito de carros é intenso, ainda mais com o ônibus que leva os batuqueiros do curso de direito do Mackenzie. Chego ao destino, um campo de terra batida, em meio a casas de tijolo aparente, que abriga o time de várzea Palmeirinha. Entre as duas traves, está montado o palco para a I Conferência da Juventude de Paraisópolis.
O encontro é uma das etapas da Conferência Nacional da Juventude, que será realizada em abril de 2008, em Brasília. Nesse encontro, os jovens discutem as melhorias necessárias para enfrentar os problemas comuns a toda essa geração, que se agravam em comunidades pobres. Querem que seu grito chegue ao planalto central. "São importantes atos dessa grandeza, com este espírito cívico, que devem marcar as coisas sérias e importantes que propõem transformar o Brasil em uma nação verdadeiramente livre, independente e, acima de tudo, honrada e justa", afirma o professor Eduardo de Oliveira, presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro e um dos convidados para a conferência de Paraisópolis.
Os moradores – não digo bairro, nem favela, por nenhum desses termos se encaixarem na região - vão chegando aos poucos e tímidos. A bateria do Mackenzie já esquenta os tamborins. No palco, os últimos detalhes estão sendo ajustados. O organizador do evento é Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores de Paraisópolis, que vai comandando sua equipe por meio de um rádio. A conferência é uma realização do Espaço Jovem Paraisópolis, União de Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Umes (União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo) e Associação de Mulheres de Paraisópolis.
A conferência tem início às 11 e dez, o sol aparece para colaborar, mas a ameaça de chuva ainda ronda. Após a apresentação da bateria dos estudantes, os convidados são chamados por Gilson para fazer uma "falação". Dentre eles, estão jovens ligados a movimentos estudantis, o vereador José Rolim, do PSDB – a única autoridade que aceitou o convite. O presidente Lula, o governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab também foram chamados. Kassab, por sinal, estava num evento perto de Paraisópolis, numa escola pública de Santo Amaro. Assim como Serra e Lula, ele mandou um representante.
A Caixa Econômica Federal e Casas Bahia também se fizeram representar, através de funcionários que anunciaram a abertura de um correspondente bancário (um estabelecimento credenciado) e de uma loja. Os moradores poderão comprar suas mobílias e receber seus benefícios sem precisar caminhar muito. "A importância do correspondente bancário dentro de Paraisópolis é que ele vai fortalecer a economia local, na medida que, ao invés de receberem seus pagamentos sociais em outros bairros, eles vão receber aqui. E aqui mesmo, gastando o seu dinheiro, investindo no mercado e no comércio local. E isso é extremamente importante", diz Fernando Augusto Marques Cera, gerente regional de negócios da Caixa.
Ao fim dos discursos, quem dá um show é o coral da ONG "Projeto Vivendo com Arte", que inclui crianças de Paraisópolis ao mundo artístico. A ONG ainda não tem sede e os ensaios são aos sábados em um colégio da região. O coral canta músicas folclóricas. Durante o show, Custoide Gomes, 61, ex-trabalhador de construção civil, afastado por ter um ombro deslocado, morador desde 1982, disse que Paraisópolis já melhorou bastante. "Melhorou, mas precisa mais. Em vista de antigamente, está melhor. Antes tinha que ir para outros hospitais para se tratar", diz Custoide. Hoje, para ser atendido no posto de saúde, a demora é de quinze dias a um mês. Custoide se lembra também do tempo em que, se não andasse com a carteira profissional, ia para "borracha" logo cedo – a Rota operava no local.
O público no campo do Palmeirinha não chega a 200 pessoas. A divulgação foi feita por meio de carro de som e visita às oito escolas de Paraisópolis. Durante o encontro, são distribuídos lanches para os moradores e kits (camiseta do evento, boné com logo da Casas Bahia, jornal local, caneta promocional da Eletropaulo e bloco de notas da Porto Seguro). O estoque de brindes não é suficientes para todos, o que preocupa a professora Raimunda de Jesus Santos, de 24 anos, que dá aula de alfabetização para adultos na Escola do Povo. Ela teme uma debandada. Foi Raimunda quem me apresentou Dêvison. Dali em diante, ele seria meu guia dentro de Paraisópolis.
Dêvison Santos Ferreira, 27, mora há 18 anos em Paraisópolis. Trabalha vendendo pão de porta em porta no Jardim Peri-Peri. Dêvison tenta ingressar na universidade desde de 2002. Começou prestando vestibular em faculdades públicas para o curso de direito, com o pensamento de orientar a comunidade. Viu que não era o que queria, e partiu para psicologia. Mas ainda não era sua praia e decidiu fazer pedagogia, pois poderia passar o "poder" para quem não tem. O meu guia é branco, de estatura baixa, com mais ou menos 1,70 metro de altura; cabelo preto, crespo, comprido, preso com um elástico e com uma faixa na cabeça. Ele tem uma namorada que cursa faculdade em outra cidade e só a vê a cada quinze dias. Articulado, Dêvison contrasta com os jovens que passam por nós. Muitos de moto, sem capacete, e vestidos no estilo surfista.
Após o fim da apresentação do coral, todos se dirigem ao colégio Dom Veremundo Toth, ex-escola de lata. Entramos na rua à esquerda, depois à direita, todas tomadas por comércio. Ao caminharmos, avistamos vielas estreitas. Dêvison me diz que as ruas passaram por um processo de urbanização recente – início deste ano. Depois de andarmos por um labirinto de ruas, chegamos a vias de chão batido e pedra. O asfalto não é para todos. Ele só volta na ladeira do colégio. Ao lado direito de quem desce, o horizonte são prédios luxuosos e, do lado esquerdo, a vista é alaranjada pelos tijolos das casas.
Quando chegamos ao colégio, o almoço está sendo servido. O cardápio: carne moída com batata cozida e arroz e frango com arroz e ervilha. Fico com a carne moída que, diga-se de passagem, estava uma delícia. A falta de jovens chateia Dêvison. Aponto para crianças e digo que elas podem ser as futuras representantes do movimento popular. O guia não esconde o pessimismo: "Elas estão aqui só para comer". No fim do almoço, quem cuida do espetáculo é o Vielas Culturais - Teatro de Rua, grupo dirigido por Elis Ângela, 25, que é atriz profissional. As apresentações do grupo, na maioria das vezes, são feitas em vielas de Paraisópolis. Fim da peça. Todos agora sobem escadas a caminho das salas de debates, que são divididas em dois temas: cultura e direitos humanos.
Na sala de cultura, as palestras ficam por conta do professor Eduardo de Oliveira, Valério Benfica, presidente do Centro Popular de Cultura, e o sambista Osvaldinho da Cuíca, um dos Demônios da Garoa. Eles são orientados a falar durante dez minutos, cada um, e depois serão sabatinados. A palestra tem início com o choro da cuíca. E no fim, é claro, aplausos. A sala está lotada de crianças, jovens e alguns adultos. Oswaldinho fala sobre como o samba é importante para atrair o jovem para a cultura, faz críticas às músicas que tocam nas rádios e sobre como é a vida de moradores de favela: "O favelado nasce numa proporção suicida. Muita gente para pouco espaço".
"É favelaaa...", cantam todos na sala. O sambista dá lugar ao professor Eduardo: "Muitos foram chamados, poucos são escolhidos". Valério fala de como o governo usa a cultura como uma forma de exclusão social e se pergunta por que Paraisópolis não tem um cinema. "Os pobres são inspiração para poemas, músicas, livros e cinema", conta Valério. Em tarde inspirada, Osvaldinho canta nova canção: "Tem partido demais lá no planalto. Mas não tem partido alto". Em seguida, comenta: "O interesse deles é fazerem que a gente consuma lixo", diz, numa referência às rádios comerciais. E Raimunda, no embalo, pede para que "prestem mais atenção à nossa cultura".
Os jovens começam a se expressar. Críticas sobre as ONGs partem de uma jovem:"Aqui tem 55 ONGs ou mais. Você acha que eles são bonzinhos? Eles estão ganhando dinheiro. Vamos ser mais críticos. 'Ah, ele está me dando isso, é bonzinho'. Ele quer ganhar em cima de nós!" Valério emenda: "Nós estamos pedindo os nossos direitos, não é um favor". Chega ao fim a reunião na sala de cultura. Vou para a sala da frente, onde ocorrem os debates sobre direitos humanos, que caminham para o final.
A sala tem cerca de 30 pessoas. "Os alunos estão desmotivados e os professores também", comenta uma jovem a respeito da precariedade do ensino público. "O Estado culpa o indivíduo pela situação precária em que ele vive, tirando a responsabilidade que é dele", diz uma adolescente. "As agressões que nós sofremos aqui é igual em toda América Latina e no mundo, imposta pelo sistema econômico vigente: o capitalismo", fala uma jovem, procurando a representante da Secretaria de Trabalho, que não está presente. Finaliza: "É uma pena ela não estar aqui".
"O acesso à informação não pode ficar nas mãos de alguns. Não deve!". Essas são as palavras de Lidia Correia, presidente da Federação de Mulheres Paulistas, que fala em tom de desabafo. Os discursos nessa sala são inflamados. "Diferente do que é mostrado na novela, nós aqui no colégio não quebramos nada", afirma uma mulher, a propósito de um capítulo de novela que mostrava violência nas comunidades mais pobres. "Aqui, os jovens sabem reivindicar".
Os debates cessam. "O nosso pessoal participou. Os jovens estão muito bem informados, sabem discutir, sabem o que querem, sabem falar, sabem reivindicar. Então nós estamos acabando com esse negócio do preconceito: tadinho, pobrezinho. Aqui não existe isso, não. Nós estamos preparados e qualificados", diz Gilson, o presidente da União dos Moradores, que se diz cansado e preocupado com um amigo que passou mal no banheiro devido ao trabalho de organização que realizou durante a semana. Depois dos debates, a conferência continua no campo Palmeirinha. À noite, é hora de Paraisópolis mostrar seus talentos: mais de vinte 20 bandas locais se apresentam, com um repertório para quase todos os gostos musicais.
O povo de Paraisópolis debateu, apontou soluções. Nenhum representante ou político esteve presente nas salas. Os veículos de comunicação foram poucos. Mas isso não desanimou os líderes da conferência. Eles acreditam que seus gritos vão ecoar. "Eles não querem ter esse conflito com a comunidade, porque são sempre as mesmas reivindicações. O problema é o mesmo há um bom tempo e ninguém faz nada. Quanto mais a sociedade reivindicar, é que nós vamos conseguir nossos objetivos", afirma Gilson. Mesmo sem contar com presenças mais ilustres, ele está convencido: Paraisópolis decidiu não mais se calar.
|
|