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Contra o crime, a Rosa

Ela é uma mulher de traços delicados e um olhar atento, vigilante, que não passa despercebido ao interlocutor. É loira, veste-se com elegância e usa um colar com a letra R em destaque. R é de Rosa Richter, a presidente do Conselho de Segurança do Morumbi, o Conseg. Rosa traz na ponta da língua a resposta para a pergunta que mais ouve das autoridades das quais freqüentemente cobra ações para garantir a paz no bairro. Ou, pelo menos, minimizar os problemas de falta de segurança. “Mas por que você?”. Para Rosa, qualquer pessoa abraça uma causa por amor ou pela dor. No caso dela, a segunda opção. Há cinco anos, o primo foi seqüestrado. Depois de quatro dias no cativeiro, ele aproveitou um vacilo do bandido que fazia as vezes de vigia, se atracou com ele e conseguiu fugir.

A família entrou em estado de choque. Nos dias que se seguiram à tragédia, a própria Rosa atendia no hospital a telefonemas de pessoas que se diziam comparsas do bandido morto. A vítima deixou o Brasil e foi morar nos Estados Unidos. E Rosa decidiu lutar por mais segurança e qualidade de vida no Brasil e, principalmente, no Morumbi. Como atingir esse objetivo é o que Rosa, casada e mãe de dois jovens, contou para o Morumbi.Net, nesta entrevista.

Morumbi.Net: Por que você?

Rosa Richter: (rsss) Dizem que todo mundo só abraça uma causa pela dor ou pelo amor. No meu caso, foi pela dor. Meu primo foi seqüestrado e eu acompanhei todo o drama de perto. Percebi que, para viver no Brasil, não podemos mais nos fechar nos apartamentos, como se vivêssemos numa ilha. É preciso desenvolver os princípios de cidadania.

Morumbi.Net: E o que você fez?

Rosa Richter: Eu comecei pelos condomínios perto de onde moro. Mandei carta para todos os moradores, convidando para uma reunião no salão de festas no meu prédio. No dia e na hora marcada, o local estava lotado. Todos estavam curiosos para saber qual era a minha proposta.

M orumbi.Net:
E qual era?

Rosa Richter: Não tinha nada fechado. Eu só sabia que a situação não podia continuar como estava. Imagina você que, no meu condomínio, dez já tinham sido vítimas de seqüestro relâmpago.

Morumbi.Net:
E qual foi o passo seguinte?

Rosa Richter: Chegamos à conclusão de que não adianta apenas transformar os condomínios numa fortaleza de segurança. O problema começa na rua. Por isso, decidimos, depois de algumas reuniões, nos unirmos. Contratamos um consultor de segurança e hoje, além da segurança interna dos condomínios, temos segurança comum num perímetro que abrange todos os prédios.

Morumbi.Net:
E isto custou caro?

Rosa Richter: É claro que a execução de um planejamento de segurança tem custos que não são pequenos, mas são infinitamente menores do que os gastos realizados quando ocorre um crime. Isso sem contar o trauma.

Morumbi.Net:
O projeto de vocês teve resultado?

Rosa Richter: Claro. Os seqüestros relâmpagos diminuíram e o número de roubos também. As pessoas estão mais tranqüilas. Hoje, além da segurança comum, nós conseguimos a adesão dos condomínios para uma política mais global. Depois desse primeiro passo, nós chegamos ao Conseg e, para manter o órgão, cada morador paga 1 real por mês, já incluído na taxa do condomínio. Além disso, temos apoio de algumas grandes empresas. A sala que o Conseg ocupa no Shopping Jardim Sul, por exemplo, foi cedida pela Camargo Correa. Se compararmos o índice de criminalidade da nossa região com as regiões vizinhas, vemos que aqui a situação está muito melhor.

Morumbi.Net:
Segurança é apenas uma questão de mais vigilância?

Rosa Richter: É claro que isso conta, mas certamente não basta. Segurança é algo muito mais abrangente. O Conseg e outras entidades trabalham juntos no sentido de promover ações sociais nos bairros carentes que ocupam áreas do Morumbi. Não adianta fingir que o problema não existe ou achar que só o Estado deve resolver. Nós temos hoje vários projetos em andamento. Voluntários tocam um programa que visa levar cultura e lazer às crianças e adolescentes na comunidade Peinha. No Paraisópolis, 54 ONGs prestam serviços comunitários. Com certeza, ações desse tipo ajudam a tirar das mãos dos bandidos a oportunidade de levar os menores para o crime.

Morumbi.Net:
Valeu a pena entrar nessa luta?

Rosa Richter: Não tenho dúvida. Há muito por fazer, mas demos o primeiro passo. Estamos na estrada. Deixamos a falsa sensação de conforto que temos dentro de nossos apartamentos e casas e partimos para a ação. Não vamos recuar.

Comentários
22/04/2007
stella maris gonçalves gil duarte
Dia a dia, não só em São Paulo, mas em quase todas as cidades de porte médio e grande, o cidadão está se organizando para suprir as falhas do Estado na área de segurança. Se considerarmos que isso também ocorre na área da saúde e da educação, resta nos perguntarmos: qual é o papel do Estado ? Até que ponto necessitamos do Estado, que a cada dia se torna presente em nossas vidas somente na hora de arrecadar tributos, sejam municipais, estaduais ou federais.


Rosa Richter
Presidente do Conseg