Edina Andreotti: “Cada criança é especial. Tenho duzentos e cinqüenta alunos e conheço cada um deles”.
A rotina das salas de aula sempre fez parte da vida de Edina Andreotti, uma das proprietárias da Piu-Piu Escola de Educação Infantil. A relação com o ensino começou aos 13 anos de idade, quando substituía professores da rede pública e participava de cursos de alfabetização para jovens e adultos. Hoje, com mais de 35 anos de carreira, a pedagoga comanda a formação de 250 alunos e tem, como uma de suas vitórias, a inclusão social para crianças especiais.
Leia a íntegra da entrevista.
Morumbi.Net: Como começou sua história no segmento da educação?
Edina Andreotti: Sempre gostei da área educacional. Minha história com as salas de aula teve início aos treze anos, quando participei de cursos de alfabetização para jovens e adultos e, eventualmente, cobria aulas de professores faltantes em colégios estaduais. Fiz faculdade, magistério e, aos vinte e um anos de idade, comecei na Piu-Piu. Sempre quis trabalhar com as crianças e, ao mesmo tempo, preparar o professor em sua formação, mostrando o que é importante para lidar com a criança.
Morumbi.Net: Como foi seu início na Piu-Piu?
Edina Andreotti: Eu estava finalizando o curso de pedagogia, já dava aula em escolas particulares, públicas e em escolas para crianças especiais, quando fui convidada pela Zélia Miyoshi para ser sócia da Piu-Piu. Estamos juntas até hoje e, desde o início, ela cuida da área administrativa e eu da pedagógica. Uma parceria que já dura trinta anos e deu muito certo. Na ocasião, a única exigência que fiz foi poder atender crianças especiais na escola, buscando proporcionar a independência delas.
Morumbi.Net: Como foi ver a evolução da Piu-Piu ao longo desses anos?
Edina Andreotti: Quando iniciamos, o bairro era mais tranqüilo, a quantidade de carros e prédios era bem menor. Era uma região pequena e nós acompanhamos essa transformação. Inclusive o nosso trabalho precisou de uma adaptação. Antes saíamos com as crianças pelas ruas e hoje não mais, principalmente por motivos de segurança. Para comemorar o feriado da Independência, por exemplo, desfilávamos pelas ruas do quarteirão. Hoje, para fazermos qualquer saída, temos uma equipe de professores, seguranças, orientadores e, claro, a autorização dos pais. As crianças sofrem com essas limitações. Cabe a nós proporcionar situações em que elas se sintam felizes. Algumas crianças ficam catorze horas na escola, então temos que oferecer momentos diferenciados.
Morumbi.Net: Como são esses momentos diferenciados?
Edina Andreotti: As crianças têm os trabalhos necessários para o ingresso no Ensino Fundamental, mas buscamos sempre fazer coisas novas, propostas diferentes. Mostramos o valor que tem cada trabalho que elas fazem, o que as incentiva na busca do conhecimento. Por exemplo, expomos cada desenho feito pelo aluno para que todos possam olhar, assim como acontece com as exposições dos artistas. Na nossa Festa Cultural deste ano, que era sobre sucata, apareceram trabalhos fantásticos, eles transformaram material usado em bonecas, castelos, entre outros. Inserimos os assuntos didáticos a serem trabalhados de forma que faça parte do dia-a-dia deles, para que eles assimilem e entendam mais fácil o conteúdo. Tudo tem que ter contexto, nada é feito por fazer. Temos uma equipe capacitada, preparada para a criança de hoje.
Morumbi.Net: Como é a criança de hoje?
Edina Andreotti: Tudo mudou, inclusive a rotina fora da escola, o que se reflete numa alteração de comportamento da criança nas atitudes em sala e com os amigos. Quando as crianças retornam para suas casas após a escola, muitas vezes os pais não estão preparados para eles, e aí forma-se uma confusão na cabeça da criança. Por isso, todos os nossos profissionais precisam de preparo. Oferecemos cursos como se fossem uma “extensão”, um aprimoramento do trabalho dos educadores, pois a pedagogia não dá essa formação, não proporciona um estágio ou trabalho direto com crianças. Às vezes colocamos professores recém-formados numa classe e ele não consegue administrar. Uma coisa é você fazer um trabalho voluntário, ter um sobrinho, outra coisa é participar da formação de um indivíduo, manter a atenção da classe, manter o grupo envolvido. Temos reuniões constantes, oferecemos cursos, etc. Os professores recebem preparo também para trabalhar com as crianças especiais, priorizando a inclusão.
Morumbi.Net: Como é feita essa inclusão social?
Edina Andreotti: Quando a criança especial chega, a professora recebe os laudos do aluno para ficar a par das condições que ela apresenta. Nós explicamos às outras crianças da sala que aquele amigo é novo e que precisa muito da ajuda deles porque ainda não sabe algumas coisas que eles já aprenderam. Nunca vamos passar a informação de que aquele amigo é diferente. Queremos um trabalho em grupo. O resultado é maravilhoso. Eles ajudam um ao outro e têm um enorme respeito e vontade em colaborar com as crianças especiais.
Morumbi.Net: A que a senhora atribui o sucesso da Piu-Piu?
Edina Andreotti: As crianças, quando chegam aqui, são um papel em branco. Aí, com o passar do tempo, elas vão preenchendo esse papel. Se nós passarmos sempre o lado bom, as folhas iniciais serão sempre de coisas boas. Mostramos a importância do ajudar. Temos diversas ações, como o Leilão Solidário, onde as crianças, em grupo, fazem a releitura de uma tela de algum artista. Daí recebemos um leiloeiro oficial, fazemos o leilão e distribuímos tudo que é arrecadado para instituições, através de alimento, material escolar, material higiênico, etc. Antes conseguíamos ajudar uma entidade apenas. Hoje, são três ou quatro ajudadas. As crianças sabem a importância disso, o destino dessas doações. Acredito que essas sejam coisas que fazem a diferença no dia a dia.
Morumbi.Net: O que mudou na questão do ensino nesses trinta anos?
Edina Andreotti: Acredito que a maior mudança seja a nova legislação, que antecipou o Ensino Fundamental e diminuiu a primeira infância o que, na minha opinião, vai fazer falta no futuro. É um período em que eles aprendem a ter contato com outras crianças, com o desconhecido, com as opiniões contrárias. É muito precoce ter crianças com seis anos indo para o Ensino Fundamental. Mas, nós seguimos uma legislação, não podemos dizer que não vamos fazer isso e pronto. Pelo contrário, nós é que temos que mudar. Para isso, até as professoras mais antigas, que trabalham conosco há mais de quinze anos, passaram por um preparo.
Morumbi.Net: Como é esse processo de se “despedir” dos alunos?
Edina Andreotti: Cada criança é especial. Tenho duzentos e cinqüenta alunos e conheço cada um deles. Quando a criança sai da escola para uma outra etapa, é como se fosse um filho se despedindo. Quanto à questão pedagógica, as escolas de Ensino Fundamental, ao receberem crianças daqui, começaram a nos procurar e, vendo o desempenho dos nossos ex-alunos, começaram a oferecer descontos, vagas para que os alunos ficassem na mesma turma, etc. Hoje, os pais buscam nossa ajuda para escolher a escola dos filhos e cabe a nós sugerir as instituições que mais se adéquam ao perfil do aluno e ao nosso perfil, pois trabalhamos na linha do sócioconstrutivismo.
Morumbi.Net: Na sua opinião, qual o aspecto mais importante na educação infantil?
Edina Andreotti: Formar uma criança é a responsabilidade mais importante. Tenho que passar informações que as deixem autônomas em certas atitudes, dentro de um limite, claro. Mostramos até onde vai a autonomia deles para que não sofram no futuro. Autonomia, organização, respeito, princípios éticos para que eles sigam o caminho do bem. Nossos alunos são muito elogiados tanto na questão da aprendizagem quanto no respeito, na educação. A criança sai daqui preparada para um mundo diferente. Cabe à família dar o suporte. Nós fazemos uma parte, mas a família é o principal ponto de referência da criança, pois, se o que é ensinado na escola não faz sentido e nem é aplicado no dia-a-dia, eles deixam de fazer, perdem o interesse. Você tem que adequar uma situação à vontade, ao prazer em aprender.
Morumbi.Net: Como é viver no Morumbi?
Edina Andreotti: No Morumbi, temos tudo próximo. Quem mora aqui, não precisa sair da região, o que facilita muito. A questão da segurança sempre precisa de melhora, assim como o trânsito. Gosto muito daqui, admiro o bairro.
Morumbi.Net: Quais os projetos para o futuro?
Edina Andreotti: Gostaria de ter um espaço para as crianças especiais. Na grande maioria das vezes, essas crianças não estão prontas para o Fundamental aos seis anos, não se adaptam às escolas, não rendem, e acabam ficando sem continuidade de ensino. Faria um trabalho onde eles poderiam receber tudo o que fosse necessário para que se tornem produtivos e tivessem condições de encarar um vestibular, cada um no seu tempo. Se eu ampliar a grade também para o Ensino Fundamental, poderei manter essas crianças comigo, seguindo o tempo deles. Mas, por enquanto são apenas idéias, que eu espero um dia poder realizar.
|
|

Piu-Piu Escola de Educação Infantil
Local: Av. Marechal Juarez Távora, 220
Tel.: 3743-2449
|
|