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Waldo Bravo e as migalhas da Arte Contemporânea

Depois das saborosas fatias, sobram apenas as migalhas. Mas quem disse que migalhas não alimentam?

Para o artista plástico e novo colunista do site Morumbi.Net, Waldo Bravo, as migalhas que sobraram aos movimentos artísticos contemporâneos, depois que as substanciosas fatias de movimentos como o Impressionismo, o Cubismo e o Dadaísmo foram devoradas pelos artistas do período da Arte Moderna, podem até mesmo deixar marcas na historia da arte. Basta aproveitá-las bem.

Aos 48 anos de idade, este chileno radicado no Brasil há 27 anos e no Morumbi há 20, nos brinda com um conhecimento extremamente sofisticado sobre a multidisciplinaridade da arte de nossos dias para depois nos deixar uma mensagem muito singela e verdadeira: arte é transformação.

Bravo!

Morumbi.Net: Como está o mercado da arte hoje?

Waldo Bravo: A arte funciona como um termômetro em tempos de crise. Quando estoura, ela é a primeira a ser cortada e, na maioria das vezes, a última a ser retomada. Mas é um mercado muito amplo, permitindo que você trabalhe tanto no território comercial, quanto no território cultural.

Morumbi.Net: Você está falando somente da pintura?

Waldo Bravo: Não, da arte contemporânea como um todo. Na realidade, hoje temos uma multidisciplinaridade intercultural. A arte, por exemplo, quando começou a dar sinais de esgotamento, procurou novas saídas. Para se manter viva, ela invadiu outras áreas da cultura, como a música e literatura. As artes visuais se deixaram contaminar e passaram a contaminar seus vizinhos culturais.

Morumbi.Net: E quais os reflexos disso?

Waldo Bravo: Por um lado, gera uma série de dúvidas. As incertesas caracterizam a arte dos nossos dias, ainda bem, ja que isso permite que investiguemos, que cresçamos e criemos novas soluções, pois nunca há um ponto final. Por outro lado, essa abundância de informações gera uma insegurança terrível, pois se trata de um dos territórios culturais de maior complexidade e que exige muito conhecimento, estudo e informação. Isto dificulta o aparecimento de intelectuais e criticos capacitado de forma multi-cultural, ou seja, que possam transitar com fluência na musica, teatro, arte, fotografia, literatura, cinema, dança, etc.

Morumbi.Net: Qual o motivo dessa escassez de intelectuais capacitados?

Waldo Bravo: O desafio de conhecimento multi-territorial complexo e um volume de informações muito grande. Para você ter uma idéia, para cada edição de livro lançada sobre música ou literatura, a arte visual chega a ter dez publicações. É muito raro você ver um critico com condições de avaliar adequadamente um trabalho que transite por diversos territórios da arte.

Morumbi.Net: Mas o Brasil tem esse tipo de intelectual?

Waldo Bravo: Sim. O curador e crítico de arte Aguinaldo Farias é um ótimo exemplo disso. Ele conhece profundamente arte, literatura e fotografia, o que lhe permite avaliações com maior segurança.

Morumbi.Net: E como anda a pintura?

Waldo Bravo: Um desafio para os artistas. Muitos críticos até chegaram a afirmar que a pintura está morta.

Morumbi.Net: E você concorda com essa afirmação?

Waldo Bravo: Não. Eu acho que a pintura, a arte bidimensional, é territorio da arte mais pobre que temos hoje. Pobre no sentido de quase não haver mais o que se explorar. Mas não que esteja morta. É óbvio que é impossível imaginar que teremos novamente artistas como Picasso ou Van Gogh, ou movimentos transformadores como Impressionismo, Cubismo e Dadaismo. Os grandes territórios já foram ocupados. Desde 1874, com o Modernismo, as maiores “fatias” da arte já foram exploradas, hoje temos migalhas. Mas acredito que as migalhas sejam importantíssimas e uma migalha bem aproveitada pode inserir um artista na historia da arte.

Morumbi.Net: E existe alguém que esteja aproveitando de maneira destacada essas migalhas?

Waldo Bravo: Sim. Tem muitos bons artistas por aí. Vik Muniz, por exemplo, compõe suas obras com produtos orgânicos como geléia, mostarda e depois as fotografa. Não sei se ele foi o primeiro a ter essa idéia, mas com certeza é o que melhor soube trabalhá-la e popularizá-la. Ele expressa sua arte através de meios não convencionais.

Morumbi.Net: Essa realização dele recebe algum nome como o “Impressionismo”, por exemplo?

Waldo Bravo: Não. Hoje é muito difícil se rotular a arte. O diferencial para os artistas está nas idéias, transformações e conceitos do próprio artista. O tema e a técnica tornaram-se algo secundário.

Morumbi.Net: Atualmente, como está o público de arte?

Waldo Bravo: Se os críticos, artistas e historiadores estão perdidos em relação a uma arte tão complexa e misteriosa quanto a dos dias atuais, imagine o público! O público acaba não entendendo quase nada. Eles chegam à Bienal esperando encontrar algo tão revolucionário quanto foi Picasso e acabam se decepcionando. A função da Bienal é mostrar os rumos da arte, e não adianta porque não teremos mudanças radicais nesse caminho. Todos os grandes territórios foram ocupados, só ficaram as migalhas.

Morumbi.Net: Qual é o seu objetivo com a coluna no Morumbi.net?

Waldo Bravo: Quero ajudar os leitores a entender e desmistificar a arte atual, para que assim haja mais interesse. Muitas vezes, por não entender a proposta do que está sendo mostrado, as pessoas se sentem ignorantes ou até pior, ofendidas. Quero ajudar a mudar isso. Quero que entendam que a relação com a arte é um exercício de auto-conhecimento. Conhecer um pouco mais sobre a arte significa aprofundar também o conhecimento sobre si próprio.

Clique aqui e confira a coluna de Waldo Bravo

 

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