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Altemio Spinelli, a volta do fabricante de sapatos que virou lenda em São Paulo.

Nascido na Itália há 72 anos, Altemio Spinelli sempre esteve ligado à fabricação de sapatos. Seu pai era dono de fábricas em seu país natal. Quando veio para o Brasil, aos 22 anos, o filho prodígio criou os sapatos Spinelli, que rapidamente ficaram famosos por aqui. Homens importantes de todo o país calçavam sapatos da marca, grande parte feita sob medida. Alguns diziam, como mostra a imprensa da época, que só se conseguia uma namorada bonita se estivesse calçando um sapato Spinelli.

Morador do condomínio Portal do Morumbi há 24 anos, Spinelli contou para o Morumbi.Net um pouco de sua vida: como trouxe os mocassins para o Brasil, a decisão de abandonar tudo e plantar radicchio, até o recente retorno aos calçados, com a Sotto Piede, fabricante de palmilhas e sapatos especiais. Confira a entrevista.

Morumbi.Net: O senhor nasceu na Itália e veio para o Brasil muito cedo. Conte-nos um pouco da sua história.

Altemio Spinelli: Saí da Itália e vim para o Brasil fugindo para não prestar o serviço militar. Não queria perder dois anos dentro de um quartel. Cheguei aqui em São Paulo no dia 19 de março de 1958. Tinha 22 anos. Em março, o céu é sempre meio roxo às cinco horas da tarde, quando o sol está saindo. Lembro-me bem: a cidade estava linda, quase não tinha prédios e eu estava lá, subindo a avenida Ipiranga. Aí eu pensei: “Poxa, que legal. É aqui que eu vou ficar”. E aqui fiquei.

Morumbi.Net: Mas você tinha algum parente ou conhecido na cidade?

Altemio Spinelli: Nada. Tinha um senhor que era um conhecido muito longe de meu pai e foi me buscar em Santos. Ele queria que eu ficasse na casa dele. Eu agradeci, mas recusei: ”Não, vou para uma pensão. Nunca fico na casa de ninguém”. Tive que dividir um quarto com outro italiano, que não se conformava com o fato de eu estar ali: “Você não podia estar aqui. Você tinha uma fábrica de sapato na Itália. O que é que você veio fazer aqui?”. Depois de uns quatro meses, comecei a ajudar um amigo que tinha uma fábrica de sapatos. Trabalhei lá uns três ou quatro meses.

Morumbi.Net: Como era a receptividade aos imigrantes italianos na época em que o senhor chegou ao Brasil?

Altemio Spinelli: Muito boa. Eu cheguei aqui sem falar nada e as pessoas se esforçavam para me entender. Depois, quando comecei a trabalhar, fazia compras no Brás mesmo sem ter dinheiro. Todos me falavam: “Quando tiver dinheiro, você paga”. Não tinha problema. Demorava uns seis meses para pagar.

Morumbi.Net: Como foi que o senhor abriu sua primeira loja?

Altemio Spinelli: Todo domingo, eu passeava pela rua Oscar Freire, rua Augusta e pensava: “Um dia vou ter uma loja aqui”. Acabei alugando um lugar pequeno, uma garagem, só para montar alguma coisa. Aí foi tudo muito rápido. Montei minha própria loja e comecei a produzir sapatos.  Vendia para o Mappin e para um pessoal do Rio de Janeiro.

Em 1965, já tinha duas lojas na rua Augusta e uma na Oscar Freire. Em seguida, vieram as lojas dos shoppings Iguatemi e Ibirapuera. Depois abrimos no Rio de Janeiro, em Londrina e até nos Estados Unidos. Tinha muita loja.

Certa vez, entre 1998 e 1999, conversei com os meus filhos e sugeri que tocassem os negócios. Mas eles preferiram seguir suas próprias carreiras. Então, decidi fechar tudo e viajar com minha mulher. Viajei, viajei até cansar. Aí eu parei e pensei: “O que eu vou fazer agora?”. Fui para Itália, trouxe sementes radicchio di Treviso e comecei a plantar na região de Campos do Jordão. Vendia para o Fasano e tudo mais. Mas isso durou apenas dois anos.

Há uns três anos, fui para a Itália e trabalhei com um amigo que tem uma fábrica de palmilhas. Achei interessante como ela fazia as palmilhas e decidi implantar o negócio aqui no Brasil. Faz poucos meses que abri a loja e o sucesso é grande. Tenho sapatos aqui que você calça e não quer mais tirar do pé. É melhor que tênis.

Morumbi.Net: Calçados Spinelli são famosíssimos. Como o senhor conseguiu agregar tanta qualidade aos sapatos da marca?

Altemio Spinelli: Eu ia muito para Itália, aprendia bastante por lá e depois aplicava aqui. Queria fazer um sapato diferente de todo mundo. Como eu tenho uma boa noção de forma, praticava até fazer uma forma boa, confortável. Eu percebia quando o cliente colocava no pé e ficava contente. E tudo é forma. Hoje em dia, mudou muito. Algumas pessoas têm um pé um pouco mais largo do que o comum e elas sofrem por não comprar um tênis ou sapato pronto que lhes serviam. E para tentar compensar, costumam comprar um número maior, o que acaba prejudicando. E eu fazia sapatos sob medida.

Quando cheguei a São Paulo, havia aquele sapato clássico de duas cores e com cadarço. Não existiam mocassins. Aí eu comecei a usar mocassins. As pessoas estranhavam. Um dia, eu estava no bonde e uma menina de uns dez anos comentou com a mãe: “Mãe, aquele moço está usando sapato de mulher”. Era um mocassin!

Eu fazia os mocassins muito rápido. E saía como água. Foi uma época muito boa. Eu fazia sapatos com cores que ninguém tinha: bordô, verde musgo, canela, marrom mais claro, um amarelado para mulher. Demorou muito para as pessoas copiarem. Tinha fila para comprar os meus sapatos. Tinha gente que chegava e encomendava vinte pares. As pessoas entravam na loja e nem faziam questão de tamanho e cor, queriam os que estivessem prontos. Nem escolhiam.

Morumbi.Net: Que outras lembranças interessantes o senhor tem dessa época?

Altemio Spinelli: Ah, várias. Calcei todos os presidentes da República. Tinha intimidade de chegar e tomar café com eles. O Médici (Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil entre 1069 e 1974) me esperava perto do aeroporto militar, no Rio de Janeiro, para tomarmos café juntos. E ele gostava, porque falava comigo em italiano. Certa vez, um oficial veio avisá-lo que um governador estava esperando para ser recebido por ele. Médici disse: “Spinelli é mais importante que este cara”.

Conheci também o Ernesto Geisel e o Costa e Silva. Eles eram boas pessoas. Tive muitos ministros e deputados como clientes também. Eles sempre me deixavam bilhetes agradecendo.

Morumbi.Net: Como o senhor avalia o mercado de calçado no Brasil e no Mundo?

Altemio Spinelli: Olha, voltei da Itália faz umas três semanas e lá está uma dificuldade muito grande. Estão fechando muitas empresas por causa dos países do leste, como a China e a Índia. Eles fabricam sapatos em grande escala, têm alguns até que simpáticos, mas não são iguais aos que os italianos produziam antigamente. Os chineses acabam ganhando mercado porque os sapatos deles são muito baratos. Mas tem muita coisa boa na Itália ainda. Por exemplo, visitei a fábrica da marca Luis Vuitton, que é de um amigo meu, e ele produz boas peças de bolsas e sapatos.

Morumbi.Net: E no Brasil?

Altemio Spinelli: Fabricam coisas boas aqui, mas está difícil também. Não tanto quanto na Itália. Mas é difícil porque os chineses chegam e vendem tudo mais barato.

Morumbi.Net: O senhor é morador do Morumbi. Conte um pouco de como é sua relação com o bairro.

Altemio Spinelli: Ah, é muito boa. Moro no Portal do Morumbi há 24 anos. É um lugar que você conhece muita gente e que tem tudo lá dentro. Eu tenho uma romiseta e meus netos adoram passear nela dentro do condomínio.

Morumbi.Net: Apesar de morar no Morumbi, o senhor não tem nenhuma loja no bairro. Pretende abrir alguma?

Altemio Spinelli: Durante dois anos, eu tive uma loja de sapato e uma de roupa no Shopping Jardim Sul. Mas com o negócio que estou agora seria interessante ter uma loja no Morumbi. Muita gente de lá vem pra cá para fazer compra. Mas só abriria uma loja lá se alguém quiser entrar junto, aí eu ajudo. Primeiro, deixa este negócio aqui ficar 100%. Depois, posso abrir quantas filiais quiser. Ainda não está na hora.

 

 


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Sotto Piede
Palmilhas e sapatos especiais sob medida
Rua Oscar Freire, 2174
Tel: 3064-7788