Yugo Mabe, legítimo herdeiro de um dos nomes japoneses mais marcantes que chegaram ao Brasil nos últimos 100 anos.
Em comemoração ao centenário da imigração japonesa, o Palácio dos Bandeirantes realiza até o final de agosto uma exposição com obras de artistas plásticos nipo-brasileiros, representativos de quatro gerações. Entre eles, destaca-se o pintor Manabu Mabe, eleito o Melhor Pintor Nacional na V Bienal de São Paulo em 1959 e falecido em 1997.
Para falar um pouco mais de Mabe, de sua pintura e da integração dos japoneses na sociedade brasileira, o Morumbi.Net foi ao Instituto Manabu Mabe, onde realizou a seguinte entrevista com seu filho, o pintor Yugo Mabe.
Morumbi.Net: O Palácio dos Bandeirantes está apresentando uma exposição comemorativa do centenário da imigração japonesa ao Brasil que expõe obras suas e de seu pai, entre outros artistas nipo-brasileiros. Qual a importância de iniciativas como essa?
Yugo Mabe: É importante tanto para os brasileiros quanto para os descendentes conhecer a arte de meu pai e de outros artistas. Nessa exposição, podemos conhecer como foi o início do século XX no Brasil, quando os primeiros imigrantes japoneses chegaram por aqui. Mas o problema é que essas comemorações só acontecem de dez em dez anos. No próximo ano, não veremos exposições de artistas nipo-brasileiros no Palácio. Talvez só no centésimo décimo aniversário da imigração japonesa ou só no centésimo qüinquagésimo. Mas, até lá, não estarei aqui para ver (risos).
Morumbi.Net: O senhor é filho de um dos mais célebres imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil. Como vê a questão da integração dos japoneses em nossa sociedade em paralelo com a preservação de seus traços culturais mais marcantes?
Yugo Mabe: O Brasil recebeu muito bem os imigrantes. Meu pai sempre foi muito grato ao povo e também ao governo brasileiro. Graças ao Itamaraty, ele teve o apoio necessário para desenvolver sua arte e levá-la aos principais centros do mundo. Quanto à integração cultural na arte que ele produziu, meu pai sempre disse que a arte que ele fazia era brasileira. Antes de pintar quadros abstratos, ele pintava paisagens, e essas paisagens eram todas brasileiras. Por outro lado, existe, claro, algo da cultura japonesa que está presente na arte do meu pai, como alguns traços da caligrafia japonesa, que podem ser vistos em alguns traços de Mabe.
Morumbi.Net: O senhor nasceu no Brasil. O grande artista Aldemir Martins disse certa vez que “a pintura de Yugo Mabe nos entrega coisas coloridas e belas, cheias de Japão e de Brasil”. O que existe de japonês e de brasileiro na sua arte?
Yugo Mabe: Isso é um elogio de alguém que eu sempre considerei como um tio. O Aldemir era muito amigo do meu pai. Tenho várias lembranças de situações marcantes na minha infância e juventude vividas junto ao Aldemir. Eu acho que, inclusive, a minha arte possui muito mais coisas do Aldemir do que do próprio Mabe. Um exemplo é todo esse negócio do colorido que eu uso, que é muito brasileiro. Tem vários artistas que eu gosto, sempre gostei. E eles me influenciaram. A arte é isso. Duvido que existam artistas originais.
Morumbi.Net: O Instituto Manabu Mabe tem como uma de suas principais metas a construção do Museu de Arte Moderna Nipo-Brasileira, que era um sonho de seu pai. Como está esse projeto?
Yugo Mabe: Este projeto está sendo realizado no bairro da Liberdade, no antigo Colégio Campos Salles, que sofreu um incêndio em 1992, através da Lei Rouanet. A previsão é que a inauguração aconteça em 2009. Será um museu com acervo permanente de artistas como Mabe, Tomie Otake, Fukushima, entre outros. Mas não pretendemos expor apenas obras de artistas japoneses e descendentes. Vamos incluir também obras de artistas brasileiros, que merecem estar em qualquer museu no mundo. É um projeto que já conta com patrocínios da Nossa Caixa, Standard Bank, CESP e Arab Banking. Mas estamos buscando mais patrocinadores (veja no box Serviço, ao lado).
Morumbi.Net: Na sua opinião, qual a importância da Internet e no quê ela pode contribuir para a disseminação da arte?
Yugo Mabe: A Internet pode ser usada de várias formas. As informações estão todas ali. Você quer consultar alguma coisa, você vai lá e vê. Entra no Google e pergunta: ”Onde tá?”. E ele vai lá e procura, traz as informações para você. Antigamente, para fazer uma transação de uma obra ou para mostrar uma obra a alguém, você tinha que tirar uma foto, mandar revelar, postar no correio e esperar uma semana para a pessoa responder. Hoje não. Você tira a foto, passa na mesma hora para o computador, envia por e-mail e já recebe a resposta. A coisa é imediata. Nesse sentido, a Internet economiza tempo. Mas é preciso ter cuidado, senão a Internet passa a comandar a sua vida e a mandar em você (risos).
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