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Bia Black em “Sonha-me tua"
Diálogos com Hilda Hilst


Bia Black vive um intenso momento de reflexão interior, de auto-conhecimento e depuração do seu processo criativo.

No presente, Hilda Hilst está no centro dos seus questionamentos, transformada no seu espelho, espelho de vida. A obra de Bia nutre-se dessa relação ao retirar boa parte da energia vital que estimulam suas criações... “Viver, é desenhar sem borracha”.

A polêmica escritora Hilda Hilst (1930 - 2004) expunha livremente seus ideais e pensamentos, tratando de forma nua e crua temas como o erotismo e a pornografia. Entretanto, percebe-se que esses temas são tratados apenas como meios para falar de coisas mais transcendentais tais como Deus, sentimentos, especialmente sobre o amor e sobre a vida que subexiste através do amor. Ela questiona os mistérios da vida, fala de pessoas, do complexo mundo em que vivemos e do existencialismo. Em síntese, fala da complexidade da alma humana e de seus relacionamentos.

No seu processo criativo, Bia se apropria de frases ou palavras de Hilda, com as quais se identifica, que refletem o que sente naquele momento, para logo inserí-las no seu trabalho.

As palavras surgem na tela como gestos pictóricos, às vezes de forma nítida, e outras vezes semi-encobertas por outras camadas de tinta, num provocativo jogo de apagamento e sedução construído a partir dessas sobreposições.

As obras de Bia são o resultado de uma longa relação com a pintura. Desde seu início, a cor sempre esteve no centro das suas pesquisas de uma forma muito intensa, e nesse atual momento de síntese, a cor adquire valor e importância ainda maior.

Suas obras são constituídas por territórios coloridos, construindo planos e sensações de profundidade a partir das transparências cromáticas.

Em alguns momentos, seus territórios ou campos coloridos recebem a influência de Mark Rothko, do expressionismo abstrato, um dos artistas mais importantes do século XX. Em outros momentos, ao elaborar seus conteúdos fragmentados a partir das bordas e laterais da tela, surgem diálogos pontuais com a obra de Frank Stela, o eclético artista contemporâneo dos Estados Unidos.

As pinceladas vigorosas registram toda a gestualidade do seu processo criativo nesse momento. São gestos expresivos de grande fluidez expressados mediante cor, às vezes em obras quase monocromáticas.

Bia constrói tensões cromáticas e territoriais entre os espaços saturados em contraponto aos espaços vazios, o que constitui fator determinante no valor expressivo das cores e das tonalidades definidas na sua relação lado a lado.

Num rico jogo de inestabilidade e desequilíbrio, Bia brinca com a luz, com a sombra, com a cor e o com espaço, criando campos de variados formatos e relações cromáticas, geradas mediante sobreposição de camadas pictóricas.

Nesse território bi-dimensional, a artista se expressa com muita personalidade, revelando seu amplo domínio, tanto na cor quanto no gesto, transitando ambiguamente entre o território emocional e o racional.

As pinturas de Bia vão muito além das relações cromáticas e construtivas que caracterizam seu presente momento. Ela mergulha fundo no território sensível da sua espiritualidade, traduzindo intensamente toda a sua maturidade.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

www.contempoarte.com.br
www.waldobravo.com.br

 

O Autor

Waldo Bravo

Bravo é um artista-curador com experiência em arte-educação, desempenhando papel fundamental na formação de centenas de artistas brasileiros. Suas obras, além de publicadas em livro pelo Escritório Brasileiro de Artes – EBART, estão expostas em galerias e museus de diversos países, incluindo participações em mostras de grande prestígio, tais como Panorama da Arte Atual Brasileira no MAM, III Bienal Nacional de Santos, X Bienal Internacional de Arte de Valparaiso no Chile, Bienal de Vilnius na Lithuania, 1a Bienal de Gravura de Santo André, entre outros. É membro fundador do NALE - Núcleo de Arte e Linguagem Experimental, e atualmente é coordenador do Espaço Contempoarte em São Paulo.

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