ArquivoCinemaAção SocialMegafoneClassificadosCadastro
Blogs & Colunas
















Trans-formação: a linguagem poética do movimento


Quando recebi o convite para orientar e acompanhar o processo criativo da artista Fabí Mello, vi na ocasião uma rica oportunidade para investigar os caminhos contemporâneos da arte cinética.

Quando falamos em arte cinética, estamos falando da arte que incorpora a idéia de movimento, não como uma obra de arte que representa o movimento e sim como uma obra que contém movimento ou está em movimento, transformando-se em um objeto móvel.

Conceitualmente, o princípio de estruturação da arte cinética está diretamente ligado ao movimento, opondo-se à condição estática da arte tradicional, como é o caso da pintura e da escultura.

Esse campo da arte é constituído de trabalhos que exploram as possibilidades de transformação visual, de forma óptica ou física, evidenciados por atitudes posicionais do observador ou a partir de uma ação manipuladora.

A exposição “Le mouvement”, de 1955, é considerada como a primeira Mostra de Arte Cinética da história, realizada na galeria Denise René, de Paris.

Nesse domínio, destacam-se artistas como Marcel Duchamp, Alexander Calder, Vasarely, Jesus Soto, Yaacov Agam, Jean Tinguely e Pol Bury, entre outros. Alguns historiadores tendem a incluir no território cinético obras da Op-Art (arte óptica), tais como Julio Le Parc, Luis Tomasello e Carlos Cruz-Diez.

Aqui no Brasil, o pioneiro nessa linguagem foi o artista Abraham Palatnik. No ano 1999, o Itaú cultural realizou uma importante mostra de arte cinética denominada “Técnica - Cotidiano / Arte”, na qual se procurou fazer um mapeamento histórico desse movimento no Brasil. Nessa exposição estavam presentes obras de Palatnik junto a obras de outros importantes artistas, como Carlos Fajardo, Guto Lacaz, João Wesley, Marcelo Niesche, Márcia X, Pedro Paulo Domingues, Sérvulo Esmeraldo, Waldemar Cordeiro, entre outros.

Nos últimos anos, Fabí Mello tem pesquisado as diversas possibilidades de representação de campos cromáticos junto aos procedimentos de transformação de imagens.

A obra do expressionista abstrato Mark Rothko – um dos artistas mais importantes do século XX – surge nas suas pesquisas como um poderoso estímulo.

Fabí se apropria dos famosos campos de cores de Rothko para fazer leituras próprias. Nesse momento, a artista exercita uma antropofagia criativa: a arte se alimentando da própria arte, a representação tendo como base outra representação.

As apropriações nos moldes Duchampianos, tais como Fabí as realiza, são uma vertente explorada por diversos artistas na pós-modernidade.

Fabí Mello estabelece um diálogo com Mark Rothko, utilizando a sua obra para explorar as possibilidades visuais do movimento e experimentar as suas transformações cinéticas. O foco da artista está na forma, no processo de transformação e reconstrução poética dos campos de cores que se “autoconstroem” e logo se “autodestroem”.

O fio condutor no seu atual processo criativo é a idéia de metamorfose. Para Fabí Mello, “a vida é flexibilidade, transformação e movimento”.

A artista utiliza estruturas cinéticas que se transformam, que se movem e surpreendem, produzindo ricos efeitos mutáveis fundamentados nas alterações perceptivas, construídas a partir da variação da posição do observador diante da obra e da ação da luz na sua superfície.

As experiências e pesquisas cinéticas de Fabí Mello incluem os happenings, entrando no território da arte sensorial auditiva e tátil com obras lúdicas e jogos interativos.

Fabí Mello questiona o que é real, brinca com a impermanência dos estados da matéria através de obras consistentes, construídas mediante uma expressiva poesia visual.

Ela é uma artista multidisciplinar que utiliza diversos meios e suportes. Ao mesmo tempo revela grande capacidade de planejar e dominar seu processo criativo nesse estimulante território da poética do movimento.

Ao observador, cabe contemplar o movimento das assemblages cinéticas que parecem estar vivas e o movimento das recriações em vídeo, nos quais ela acrescenta elementos em movimento real nos campos bidimencionais do Rothko, colocando-os em outra dimensão.

Criadora de novos alfabetos, Fabí Mello trabalha com determinação e coragem, produzindo obras rítmicas nesse singular território, conseguindo, dessa forma, resultados que provocam curiosidade, mistério e surpresa.

Waldo Bravo
Artista-curador e Arte-educador

www.contempoarte.com.br
www.waldobravo.com.br

 

O Autor

Waldo Bravo

Bravo é um artista-curador com experiência em arte-educação, desempenhando papel fundamental na formação de centenas de artistas brasileiros. Suas obras, além de publicadas em livro pelo Escritório Brasileiro de Artes – EBART, estão expostas em galerias e museus de diversos países, incluindo participações em mostras de grande prestígio, tais como Panorama da Arte Atual Brasileira no MAM, III Bienal Nacional de Santos, X Bienal Internacional de Arte de Valparaiso no Chile, Bienal de Vilnius na Lithuania, 1a Bienal de Gravura de Santo André, entre outros. É membro fundador do NALE - Núcleo de Arte e Linguagem Experimental, e atualmente é coordenador do Espaço Contempoarte em São Paulo.

Envie um e-mail

Leia todos os textos publicados nesta coluna
Obra de Leilah Costa na Rio Trilhos
Salão de Arte de Santo André
Exposição “Revisitando Duchamp”
Bia Black em “Sonha-me tua – Diálogos com Hilda Hilst”
“S.O.S.” nas obras de Zuleika Bisacchi
Trans-formação: a linguagem poética do movimento
Sinfonia cromática de Vicencia Gonsales
Arte: Emoção ou Razão?
Arte cultural ou arte comercial?
Introdução ao mercado de arte
Muito prazer, Waldo Bravo