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Vestígios

Quem acompanha o percurso artístico de Margarida Gregori, se surpreende com o vigor das suas novas representações pictóricas e com a abrangência da sua narrativa poética no campo da abstração concreta.
Margarida expõe a expressão dos seus pensamentos, uma coreografia de representações no território da linguagem pictórica, que expressam o sublime nas composições, proporcionando ao espectador uma contemplação e uma percepção estética única nessas telas.
É o resultado da representação mental e da construção de ideias poéticas de uma fase que teve início em 2001. Margarida apresenta a síntese da sua trajetória em trabalhos que exprimem a procura pelo absoluto e pela superação permanente.
Nesse caminho trilhado pela artista, as indagações estéticas resultam da incorporação de experiências distintas na estrutura interna da sua linguagem.
A artista utiliza um processo criativo no qual, ao mesmo tempo em que nega e apaga camadas e gestos anteriores, ela promove um resgate sensível desses tempos passados. É como o trabalho do arqueólogo quando, ao escavar, vai re-descobrindo obras e criações pré-existentes. Nesta revelação, emergem fragmentos de representação daquilo não visível, pensamentos remotos e múltiplas sensações, na procura incessante dos vestígios da sua memória.
A imagem final reaparece no olhar do espectador como tênue lembrança existencial num diálogo poético com o tempo e a memória.
Suas obras permitem variadas leituras no vocabulário artístico e, ao mesmo tempo, promovem uma ampliação de sentidos e significados em torno das propostas autorais.
O processo criativo, nas telas de Margarida, amplia o campo físico da linha e do gesto na medida em que ela utiliza procedimentos antropofágicos e canibais ao se relacionar com referências iconográficas históricas ou atuais que ela assimila e incorpora na sua obra. Uma prática criativa que mistura história, técnicas e linguagens de forma mais ampla.
Nesse conjunto de trabalhos podemos identificar remetências e citações pontuais com as obras de artistas como Antoni Tapies, Sergio Fingerman e Marco Túlio Resende. Artistas que formam a base estrutural de referências na sua linguagem e pensamento atual. Ao mesmo tempo, podemos ver diálogos com as pinturas rupestres e com o grafitte urbano, inserindo nas telas vestígios e rastros de elementos de comunicação humana. Nesse contexto também são inseridas as fendas de Fontana como elo de ligação com suas fases anteriores.
O experimentalismo poético de Margarida a tem levado a transitar por linguagens sem dogmas, numa relação livre e de múltiplas possibilidades estéticas.
A materialidade na superfície das suas pinturas dialoga com a presença silenciosa das cores, das tonalidades e dos campos de força constituídos.
Nessa linguagem de abstração concreta, a artista articula composições de territórios monocromáticos em contraponto às estruturas irregulares de linhas e gestos representados no plano pictórico, onde a cor também se faz presente na superfície das telas, definindo zonas de plasticidade cromática.
A artista comanda um discurso poético, demonstrando domínio sobre a técnica apurada e conquistada naturalmente pela maturidade.
Margarida revela uma rica experiência vivencial representada em trabalhos equilibrados e sem excessos, desenvolvidos e lapidados ao longo de sua sensível trajetória de vida e arte.
Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador
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