A sinfonia dos pássaros no meio do caos urbano
19/03/07
A fundação Maria Luisa e Oscar Americano tem 75 mil metros quadrados de Mata Atlântica
Ao entrar no parque, me impressionei com a beleza da grande mata verde, herança deixada por Oscar Americano e sua esposa, Maria Luisa. A casa foi projetada em 1950 pelo arquiteto Oswaldo Arthur Bratke (1907-1997) e pelo paisagista Otávio Augusto Teixeira Mendes (1907-1998). Em 1980, trinta anos depois, o que era de uso privado se tornou público, com a inauguração da fundação que leva o nome do casal. Foi um acontecimento tão importante que contou com a presença do então presidente da República, general João Figueiredo. No local, existem aproximadamente 25.000 espécies da flora nativa, como o Pau-brasil, o Angico e a Ibiúna.
O pé de Jacarandá foi trazido da Bahia e gerou uma grande quantidade de mudas. Os filhos do casal ajudam a manter ativo um oásis de tranqüilidade, ar puro e qualidade de vida. Parece um milagre que, no coração do Morumbi, exista tal lugar. Algumas árvores contêm liquens, uma espécie de mancha verde. Na verdade, se trata de organismos vivos, que se instalam em cascas e rochas e não costumam sobreviver em meio à poluição. O ambiente da fundação protege esse micro-seres da fumaça jogada pelos carros que passam pela avenida ao lado, a Morumbi.
A avenida divide a fundação e o Palácio dos Bandeirantes. De um lado da calçada, o poder político. Do outro, o poder da natureza, distribuído por 75 mil metros quadrados de Mata Atlântica. Na minha visita, vi muitos pássaros, de diferentes espécies, muitos coloridos. Não sei se foi meu estado de espírito, mas a sensação que tive é de que pássaros estavam felizes. Pensei: por que não podemos viver num ambiente assim? A cidade é uma massa de concreto que sufoca a vida. Na fundação, acontece o contrário. Até o canto dos pássaros parece uma saudação à vida e à beleza contida nas coisas simples, como é a natureza. Perto de mim, algumas senhoras faziam uma visita monitorada. Enquanto caminhavam, ouviam explicações sobre a origem de cada árvore. Algumas levavam binóculos.
Tinha visitante reclamando dos pernilongos. As monitoras explicavam que não é sempre assim. É que naquele dia fazia muito calor, o que favoreceu o passeio dos insetos. Crianças são bem-vindas, mas para entrar elas deixam na entrada skates, bicicletas, cachorros e tudo o mais que possa quebrar o clima de tranqüilidade. Carros também ficam do lado de fora, sob a vigilância de seguranças contratados. Dentro da Casa, a viagem é de outra natureza. Existe um grande acervo cultural, desde cartas do Brasil Imperial a esculturas modernas. Também há moedas antigas e coleção de porcelanas. Uma tela de Di Cavalcanti, Cais, de 1955, se destaca entre os quadros. Segundo uma funcionária, foi pintada no interior da casa, quando o artista fez uma visita ao casal amigo.
Num espaço acima da casa principal, próximo do lugar onde Athina Onassis se casou com o brasileiro Doda, estão expostas as fotos de pássaros tiradas pelo fotógrafo Edson Endrigo. As fotos são lindas, mas fotografias, como se sabe, são representações. A realidade presente na fundação é muito mais atraente e exuberante. A paisagem é bonita e contém diversidade. O espaço gastronômico é famoso por servir chá, mas deixa a desejar, pois não oferece opções para uma refeição. A fundação vende livros, CDs e objetos de decoração. Um patrimônio do lugar é a forma educada com que os funcionários atendem os visitantes. Eles cumprem à risca o que sonhavam os idealizadores da casa: fazer do lugar um espaço para que todos possam ter acesso à cultura erudita e ao meio ambiente preservado.
Jacqueline de Arruda
jacqueline@morumbi.net
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