No Real Parque, o pesadelo de quem diz não ter onde morar
No dia 11 de dezembro, uma operação para remover uma favela do Real Parque terminou com moradores feridos e um mega-congestionamento na Marginal Pinheiros. A reintegração de posse foi ordenada pela Justiça, a pedido da Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae), controlada pelo governo do Estado. Mas quem coordenou a operação foi um funcionário do alto escalão da prefeitura de São Paulo, o subprefeito do Butantã, Maurício de Oliveira Pinterich. A Emae alega que a remoção da favela era necessária para preservar o patrimônio da empresa. Ela nem sabe ainda o que fará com o local. Para a defensora pública Samanta Souza, a operação atendeu a interesses privados. Teria sido realizada para evitar a desvalorização dos empreendimentos na região, que está sendo preparada para ser o novo cartão-postal da cidade, principalmente por causa da ponte estaiada e de um shopping center que será inaugurado ali. O repórter Rodrigo Tavares, do Morumbi.Net, foi o único profissional de imprensa a entrar no local do conflito. Eis o seu relato:
A Folha de S. Paulo publicou na primeira página da edição de 12 de dezembro uma foto que faz lembrar cenas de países em guerra. Sob a fumaça do gás lacrimogêneo atirado pela polícia, aparece uma mulher com uma criança no colo sendo resgatada por um homem. Ela parece soltar um grito de horror. O jornal não identifica nenhum deles e dá destaque para os reflexos da operação no trânsito da cidade, não trata do drama de pessoas que dizem não ter onde morar. Não foi difícil localizar o homem fotografado pela Folha de S. Paulo. É Paulo Sérgio, de 33 anos. Profissão: pintor. Um dos seus empregos recentes foi num luxuoso prédio da avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini. Enquanto dava entrevista perto dos destroços da favela removida, ele apontou para o edifício. É o da Microsoft. Paulo mora há três meses num barraco em terreno não contemplado pela decisão judicial de reintegração de posse. Ele ainda tem um teto, mas não conseguiu deixar de se envolver com o problema de seus antigos vizinhos. Quando viu pessoas gritando, chorando e correndo da polícia, ajudou quem pôde a sair daquele “inferno”.
“Quando a polícia começou a atirar bombas, corri para ajudar uma mulher com uma criança de colo. Deixei de pensar em mim e fui ajudar”, diz Paulo, que mora ali há apenas três meses. A dona de casa Gisele do Santos Vieira de Lima, 22, não conseguiu sair a tempo da linha de tiro e foi ferida na perna por uma bala de borracha e por fagulhas das bombas de efeito moral. Gisele mora com a mãe na favela e estava construindo um barraco no terreno da Emae. Gisele estava com o grupo de moradores que bloquearam a Marginal Pinheiros, num protesto para tentar evitar a remoção da favela. Quando a tropa de choque começou a desocupar a via expressa, ela correu para as escadas que ligam a calçada à favela. “Quando corria, vi uma bomba estourando, no chão, no meio das minhas pernas. Minha visão escureceu e senti falta de ar, mas mesmo assim continuei correndo”, disse Gisele. No topo da escada, olhou para as pernas e viu sangue na canela, no joelho e o short furado na altura das nádegas por uma bala de borracha. Em seguida, foi levada para o hospital Santa Casa de Santo Amaro para fazer curativos.
A confusão se estendeu na rua Paulo Borró, atrás do Cingapura, ainda na favela. Moradores montaram três barricadas de fogo para impedir o acesso de 13 motos e duas viaturas da polícia. Na laje de algumas moradias, jovens vestidos de bermudas e sem camisa se comunicavam por meio de rádio. No asfalto, outros atiravam pedras na direção da polícia. Uma delas quase atingiu o repórter do Morumbi.Net. Os moradores estavam muito nervosos. Julieta dos Santos Vieira, 64, mora há mais de 30 anos na parte da favela que não foi tocada pela subprefeitura. Ela é mãe de mulheres envolvidas no conflito: Gisele, a mulher que levou um tiro nas nádegas, e a senhora resgatada pelo pintor Paulo. Gisele tinha escolhido o terreno da Emae como sua nova casa. Desalojada e ferida, a filha de Julieta foi levada para o hospital. Outra filha e a neta também tiveram de ser medicadas, porque passaram mal ao serem atingidas pelo spray de pimenta.
O outro lado
O representante da prefeitura na operação, o subprefeito Maurício Pinterich, rebateu a acusação de que a reintegração de posse não respeitou o direito de posse dos moradores. Segundo ele, no local foram construídas moradias fantasmas, com o único objetivo de receber indenização de R$ 5 mil. Segundo Pinterich, barracos foram construídos no Real Parque e ocupados por “laranjas” quando a prefeitura já entregava aos moradores legítimos um cheque de R$ 5 mil. O Ministério Público fez uma investigação, e o promotor José Carlos de Freitas diz que a fraude realmente existiu.
De acordo com o subprefeito, cerca das 70 famílias que habitavam o local não foram avisadas com antecedência sobre reintegração. Três oficiais de Justiça apareceram às 7h do dia para notificar o despejo – muitos moradores tinham ido aos seus respectivos serviços. “Fui trabalhar e quando cheguei já estava tudo no chão”, disse Severino Felipe Santiago Filho,28, ajudante de eletricista. Os pertences dos moradores foram recolhidos pela subprefeitura e serão guardados em um depósito da EMAE - embora no local fosse visível móveis em meio aos barracos derrubados.
Para a advogada Samanta Souza, da Defensoria Pública da Zona Sul, a ação viola o estatuto da Cidade e a Constituição Federal. “A reintegração não foi pacífica. A prefeitura não tem nenhum plano de habitação. E é obrigação do poder público recolocá-los em algum lugar”, diz a advogada. Na semana passada, a Defensoria entrou na Justiça com uma ação civil para impedir novas remoções de favela, na região do Morumbi e Brooklin. Até o dia 17 de dezembro (data em que foi escrita esta reportagem), o pedido não havia sido julgado. Para Carlos Magno, presidente da Sociedade Moradores do Morumbi, independentemente das ações da prefeitura e de uma eventual decisão da Justiça, as favelas do bairro tendem a desaparecer. “Com a especulação imobiliária, os preços dos terrenos no bairro não param de subir e as construtoras devem comprar áreas hoje ocupadas por favelas”, diz Magno.
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